Overdose de Métodos Diagnósticos
O médico Paulo Paim do Hospital da Cruz Vermelha Brasileira - Paraná, Co-coordenador da Choosing Wisely Brasil encerrou o mês de Setembro participando de dois grandes eventos. Em Goiás, no V Simpósio Internacional de Medicina Ocupacional da Sociedade Brasileira de Anestesiologia abordou o tema "Overdose de Testes Diagnósticos: Como tratar?" e na  X Jornada de Clínica Médica UFPR - tradicional evento da comunidade acadêmica de medicina no Paraná, falou sobre  "Menos é Mais nos Cuidados Paliativos".
 
Após esta X Jornada, que marcou também o ingresso da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) para a Choosing Wisely Brasil,  Paim nos concedeu entrevista respondendo a 4 perguntas básicas que esclarecem sobre a importância de escolher sabiamente ao realizar diagnósticos e prescrever tratamentos. 
 
1. Há uma crença na população de que o médico que solicita uma infinidade de exames está preocupado com a melhor investigação sobre a saúde do paciente. Além disso, os avanços tecnológicos aumentaram a possibilidade de diagnósticos e tratamentos. Em sua recente participação em Simpósio Internacional, realizado em Goiás, o senhor abordou a questão de que o  excesso de exames pode levar à "overdose" de tratamentos desnecessários. Esta é uma nova visão da medicina? A que caminhos esta constatação conduz?
 
Realmente estas crenças são reais e determinam em grande parte o comportamento de nós médicos ao decidirmos sobre uma conduta clinica, seja para pedir um exame,indicar um tratamento ou uma intervenção. Durante décadas nos dedicamos a estudar doenças, seus melhores métodos de diagnóstico, descobrir e indicar tratamentos mais eficientes e eficazes. Agora vivemos o momento de rever nossas praticas e refletirmos sobre como ser mais assertivos, em nossas decisões clínicas, para entregarmos aos pacientes métodos diagnósticos e terapias com menor risco de oferecer testes e intervenções com resultados ilusórios ou fantasiosos.
 
2. Se a supervalorização de exames, em detrimento de uma melhor avaliação clínica, pode gerar efeitos danosos (físicos e financeiros) ao paciente que razões levam os médicos a optarem por esta forma de investigação diagnóstica?
 
O pensamento médico é também humano e está sujeito a distorções da lógica devido a muitos fatores. O pensamento médico não baseado nas melhores evidências cientificas, a preocupação excessiva com a judicialização na medicina, a pressão de pacientes e seus familiares assediados pela mídia da indústria de exames e tratamentos (exagero dos benefícios e minimização dos danos), a falta de tempo para construir uma relação médico paciente adequada e buscar consensos decisórios com pacientes e familiares, o modelo de remuneração por volume de intervenções realizadas, e por último a dificuldade de lidar com as incertezas na medicina conduzem a erros decisórios, excessos de indicações e consequentemente maior prejuízo emocional, físico e financeiro para o sistema como um todo. Devemos ter o entendimento que além de propor melhores exames e tratamentos temos também que construir um sistema de saúde equitativo e sóbrio que consiga cuidar das necessidades de saúde de todos os grupos de doentes.
 
3. Esta é uma situação que pode ser revertida? Como envolver a classe médica nesta questão ? 
 
Sim. Esta situação não só pode como deve ser revertida. Precisamos todos (médicos, pacientes e sociedade organizada) conversarmos mais sobre o ”valor” de diferentes testes e tratamentos. Pacientes e comunidade leiga em geral devem entender os malefícios do sobre-diagnóstico e do sobre-tratamento para serem elementos ativos na mudança cultural para um novo momento. Precisamos quebrar paradigmas perpetuados a décadas, conversarmos mais sobre os diagnósticos, seus respectivos prognósticos e aceitarmos as incertezas. 
Como consumidores, muitas vezes consumimos a “percepção de segurança”. Queremos exames para diminuir nossas incertezas em relação ao futuro, e com esta premissa compramos uma certa ilusão de que não estamos susceptíveis a riscos. Queremos fazer diagnósticos antes que as doenças ocorram. Muitas vezes este pensamento é necessário e muito importante, mas devemos vigiar, pois se aplicamos esta lógica para tudo, podemos diagnosticar e tratar condições que não necessariamente deveriam ser tratadas, pelo menos não naquele momento. Estamos indo para uma medicina mais sóbria e reflexiva, e neste novo cenário a decisão médica compartilhada com os pacientes e familiares é fundamental. Devemos provocar estas discussões com os pacientes e encorajar estes a tomarem as melhores decisões apoiadas nas melhores evidencias e principalmente no valor real dos custos e dos benefícios esperados.
 
4. No Hospital da Cruz Vermelha Brasileira - Paraná a partir da implantação do conceito Choosing Wisely - fazer escolhas sábias, o atendimento médico é baseado no histórico individual do paciente. Focar mais no paciente, e não apenas em protocolos, pode ser um dos escapes para evitar a prescrição de procedimentos e exames desnecessários?
 
A campanha Choosing Wisely Brasil tem tomado corpo de forma lenta e sólida, capilarizando-se entre sociedades de especialistas brasileiros, hospitais e escolas de saúde. Estudos mostram que as iniciativas Choosing Wisely em países como EUA e Canadá tem influenciado a mudança comportamental de médicos e demais profissionais assistenciais. Devemos promover a expansão desta poderosa ferramenta cognitiva para obtermos melhores resultados. É um processo lento e concreto. Choosing Wisely não é um modismo, é uma iniciativa que veio para ficar e evoluir com o pensamento de profissionais assistenciais. Campanhas como essa devem ser encorajadas em hospitais, clínicas e em meio à comunidade de consumidores de serviços em saúde.
 
Dr. Paulo Fabricio Nogueira Paim - 
Coordenador do Programa de Medicina Hospitalar e Diretor Clínico do Hospital da Cruz Vermelha Brasileira.- Paraná
Presidente da Academia Brasileira de Medicina Hospitalar
Co-coordenador Nacional do Choosing Wisely Brasil
 
Assessoria de Imprensa - Jornalista: Vik Correia - MTB 244.722