Menos exames e mais atenção ao paciente

Menos exames e mais atenção ao paciente - é a premissa básica que rege a carreira do cardiologista Jerônimo Fortunato Junior, Presidente do Hospital da Cruz Vermelha do Paraná.  Em recente entrevista à Revista Dimensão o médico ressalta a importância de banir o hábito de exames desnecessários e focar mais atenção ao paciente. Enfrentar o forte apelo comercial para a realização de uma infinidade de exames, além de vencer a oferta da doença pelo próprio paciente (que instigado principalmente pelo pelo dr. Google, já chega ao concultório com um diagnóstico pronto) é um desafio para os médicos e estes precisam estar preparados para convencer o paciente e desconstruir pré-conceitos.

Clique aqui para assistir a palestra do Dr. Jerônimo Fortunato Junior -  "Menos é Mais - Os Erros Ocultos" -  no II Congresso Brasileiro de Medicina Hospitalar.

 

Matéria completa publicada na Revista Dimensão 

 

Cardiologista curitibano critica excesso de exames médicos e defende o retorno do médico generalista

Prepare o seu coração, Pras coisas que eu vou contar ...

 

Apresento lhes  (apesar de ele quase dispensar apresentações) o médico cirurgião cardíaco Jerônimo Antonio Fortunat

o, alguém que já esteve - literalmente - no coração centenas de pessoas. Não, ele não estava à procura de amor, que não reside no coração, mas abriu o peito de muita gente para corrigir pequenas ou grandes anomalias cardíacas. Às vezes polêmico, às vezes objetivo e direto, mas sempre consciente da responsabilidade que tem diante de seus pacientes ou da comunidade médica em geral. Tanto que  adota a máxima de que 'na medicina, menos é mais". E explica! "Menos exames médicos e mais atenção ao todo do nosso paciente". Outra máxima do médico, utilizada em suas palestras: "se você procura, acha!"
 

 

Critica o avanço tecnológico utilizado apenas como diagnóstico e elogia a mesma tecnologia que vem sendo usada para facilitar cirurgias que até bem pouco tempo eram invasivas e provocavam longas permanências do paciente nos hospitais. É pioneiro, por exemplo, na realização do que chama de "cirurgia cardíaca minimamente invasiva", na qual a operação é feita sem abrir o peito do paciente. Utiliza equipamentos de última geração e aplicativos que ajudam na orientação e na precisão do procedimento. Ao contrário do que acontecia antes, com esse tipo de operação o paciente retorna em até uma semana para casa.  O seu conhecimento (e pioneirismo) está sendo disseminado, tanto que estava com passagem marcada para Goiás, onde faria duas palestras sobre o tema no Congresso Brasileiro de Cardiologia.

O médico é estimulado a solicitar exames, por dois motivos básicos, diz Jerônimo. Primeiro, por insegurança, para ter certeza do diagnóstico. E, segundo, por medo de um possível processo. "Precisamos tirar o especialista e voltar ao generalista na medicina", aponta. Segundo ele, quanto mais especialista mais o médico corre o risco de errar. Mas para isso, é preciso mudar a percepção tanto do profissional quanto do paciente. "É inimaginável, para o paciente, sair de uma consulta médica sem solicitação de exames complementares ou uma receita com medicamentos, que na maioria das vezes não são necessários. E o médico, sem os exames, não corre o risco de apontar medicamentos", esclarece.

 


Essa nova maneira de olhar a Medicina vem sendo adotada pelo Hospital da Cruz Vermelha, onde Jerônimo é diretor, em trabalho conjunto com a faculdade com a qual o hospital trabalha, a Positivo. "Já temos uma queda significativa na solicitação de exames médicos e na permanência dos pacientes em leitos hospitalares", constata.

 

Doença crônica não se cura, se trata, aponta Jerônimo. É ilusão achar que exames complementares vão levar a mudanças significativas na cura de doenças. "O exame desnecessário não é inócuo, ele mata, porque leva a intervenções na maioria das vezes desnecessárias", denuncia.

 

Sedentarismo, má alimentação e má adesão aos medicamentos são os fatores que mais provocam doenças nos tempos atuais onde a vida mais corrida e a facilidade de transporte induzem as pessoas a não fazerem exercícios. "Mas muita gente poderia estar vivendo tranquilamente e feliz com sua doencinha no coração, sem precisar colocar um stent ou algo parecido. A Aterosclerose (que Jerônimo chama de "a doença divina") pode ser tratada clinicamente e não trazer complicações ao paciente por muitos anos. Já a "doença" criada pelo homem, o stent, sempre registra obstrução após cinco anos e muitos (20%) já no primeiro ano, necessitando substituição.

 

Quer reduzir a possibilidade de problemas cardíacos? Comece fazendo exercícios físicos, porque a vida sedentária é um dos complicadores.

 

As pessoas não estão ficando mais doentes do que antes, o que está acontecendo, diz Jerônimo, é que cresceu significativamente a solicitação de exames médicos nem sempre necessários. "O aumento dos diagnósticos têm provocado "necessidades" muitas vezes desnecessárias", diz o médico.

 

E há outros complicadores no caminho. A disseminação cada vez maior da inclusão digital está provocando uma anomalia na questão da saúde. "As pessoas que não se convencem com o seu médico, estão procurando uma "segunda opinião", nem sempre a mais indicada: o google!", reclama Jerônimo. Esse tem sido um grande complicador, porque a maioria dos "enfermos" já chega ao consultório médico achando que sabe tudo sobre sua doença. A "segunda opinião", a do próprio médico, tem muitas vezes sido desconsiderada, trazendo sérias consequências para o paciente.

 

PS: A estrofe que abre essa reportagem é de Geraldo Vandré e foi imortalizada por várias vozes, principalmente Jair Rodrigues.
 

 

Fonte: João Alceu Julio Ribeiro - Revista Dimensão